A Elegância do Ouriço

A Elegância do Ouriço de Muriel Barbery

A Elegância do Ouriço
A elegância do ouriço

Sem muitas expectativas abri a obra A Elegância do Ouriço de Muriel Barbery em uma bela tarde de sábado. Motivado por uma curiosidade tranquila, de quem apenas está explorando as coisas, li os primeiros parágrafos sem muita emoção.

Não me envolvi rapidamente com o livro, pelo contrário, foram uns bons capítulos até que a história da concierge francesa me envolvesse. Pouco a pouco foram aparecendo citações e situações na vida daquela erudita senhora que começaram a me tocar profundamente, e – em certo momento – criamos uma empatia forte e profunda.

Ela se tornou uma extensão de mim mesmo, capturando e lendo a realidade de um luxuoso prédio na icônica França em uma leitura que parecia ser minha, mesmo sem eu saber.

Aprendi com seu olhar coisas que eu já sabia, mas não tinha consciência, e isso para mim é o que torna histórias, grandes obras.

Em sua trajetória de cultura, amor e observações vi um quadro vivo de um mundo que parecia ser o meu, em outra vida ou em um futuro mais próximo do que desejo.

Nas ultimas páginas, chorei solto diante dos fatos da vida, que não são cruéis ou bons por si mesmos, mas apenas se desencadeiam uma sequência de situações que simplesmente acontecem.

Talvez no fim sejamos, a sra. Michel e eu, duas pessoas que não estudaram, sempre fomos pobres, discretos e insignificantes, raramente simpáticos, embora sempre bem-educados.

Talvez não gostem de nós, mas nos toleram por correspondermos bem ao que a crença social associou ao paradigma de concierge, mas nem por isso nossas histórias são simplórias, pelo contrário, elas estão repletas de cores, sons, conhecimentos e descobertas incríveis que podem expandir nossa visão da própria vida.

E o livro que comprei, diga-se de passagem, dei de presente – algo incomum para um colecionador como eu – na esperança de que aquela senhora conte mais do mundo para outras pessoas.

Citações selecionadas

Não estudei, sempre fui pobre, discreta e insignificante […] Como raramente sou simpática, embora sempre bem-educada, não gostam de mim, mas me toleram porque correspondo bem ao que a crença social associou ao paradigma da concierge” (BARBERY, 2008, p. 15).

E mais: acho que a lucidez torna o sucesso amargo, ao passo que a mediocridade sempre espera alguma coisa” (BARBERY, 2008, p. 22).

[…] não é porque se projeta morrer que se deve vegetar como um legume que já apodreceu. Aliás, é exatamente o contrário. O importante não é morrer nem em que idade se morre, é o que está se fazendo no momento em que se morre” (BARBERY, 2008, p. 24).

O que é uma [autêntica] aristocrata? É uma mulher a quem a vulgaridade não atinge, embora esteja cercada por esta” (BARBERY, 2008, p. 30).

A criança fraca se tornara uma alma faminta” (BARBERY, 2008, p. 45).

SETSUKO: A verdadeira novidade é aquilo que não envelhece, apesar do tempo” (BARBERY, 2008, p. 106).

[…] no universo tudo é compensação” (BARBERY, 2008, p. 109).

A faculdade que temos de manipular a nós mesmos para que o pedestal de nossas crenças não vacile é um fenômeno fascinante” (BARBERY, 2008, p. 115).

Mas, se tememos o amanhã, é porque não sabemos construir o presente, contamos que amanhã saberemos e nos ferramos, porque amanhã acaba sempre por se tornar hoje, não é mesmo?” (BARBERY, 2008, p. 138).

A sra. Michel tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes” (BARBERY, 2008, p. 152).

De meu lado, suplico ao destino que me conceda a chance de ver além de mim mesma e encontrar alguém” (BARBERY, 2008, p. 154).

Mas muitos homens inteligentes têm uma espécie de bug: consideram a inteligência como um fim. Têm uma única ideia na cabeça: ser inteligente, o que é muito estúpido. E, quando a inteligência se considera um objetivo, funciona estranhamente: a prova de que existe não reside na engenhosidade e na simplicidade do que produz, mas na obscuridade de sua expressão” (BARBERY, 2008, p. 177).

Pois a Arte é a emoção sem o desejo” (BARBERY, 2008, p. 219).

Então, queimam os carros porque quem não tem cultura não é mais um animal civilizado: é um bicho selvagem. E um bicho selvagem, isso aí queima, mata, saqueia” (BARBERY, 2008, p. 277).

Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem” (BARBERY, 2008, p. 293).

Então, será que deveria ser médica? Ou escritora? É um pouco parecido, não é?” (BARBERY, 2008, p. 312).

Referências
BARBERY, Muriel. A Elegância do Ouriço. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 350p

Publicado por

Heller

Ainda aprendendo como viver nessa vida. Perdido nesse caos todo, escrevo aqui sobre minhas dúvidas, questionamentos e meus muitos erros e seus possíveis aprendizados.

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